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Sexta-feira, 17 de Junho de 2005

Trecho 338, Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de depreendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei físicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso. Estamos todos habituados a considerar.nos como primordialmente realidades mentais, e aos outros como directamente realidades físicas; vagamente nos consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que todos têm sobretudo alma, como nós para nós. Perco-me, por isso, às vezes, numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. Era precisa outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de sabero que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o que de mim de grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da minha consciência de mim. Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer razão, e as formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos. A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de costas, acidentadíssima de montanhas e de lagos. E tudo me parece, se medito de mais, uma espécie de mapa como o do Pays du Tendre ou das Viagens de Gulliver, brincadeira inscrita num livro irónico ou fantasia para gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras. Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de justificar a sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto, como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira. Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de quaquer modo, nada importa. Tudo isto, todas estas considerações extraviadas da rua larga, vegeta nos quintais dos deuses exclusos como trepadeiras longe das paredes. E sorrio, na noite em que concluo sem fim estas considerações sem engrenagem, da ironia vital que as faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões do Destino.
publicado por busybee às 12:51
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1 comentário:
De Anónimo a 9 de Julho de 2005 às 18:42
Olá!!
Brigada plo teu kumentario n meu blog...tu pedixt.m k t dexe o endereço d nv blog...vai ao meu antigo e ta la a dixer...s kiserx kumenta aí e n meu nv blog...
bjkx ffx d vanexa e brigada********
=)Vanexa
(http://www.photoblog.be/vanessa_slb)
(mailto:)

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