Alguma da obra poética dos seus heterónimos, especialmente o Livro do Desassossego de Bernardo Soares...

.posts recentes

. Temor da morte

. sem título

. Trecho 433, Livro do Desa...

. trecho 188, Livro do Desa...

. trecho 182, Livro do Desa...

. ...

. Carta a Ophélia não datad...

. Ode de Ricardo Reis

. Trecho 381 do Livro do De...

. outra Ode de Ricardo Reis

.arquivos

. Outubro 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

Sábado, 22 de Abril de 2006

Trecho 312 do Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Há dias em que cada pessoa que encontro, e, ainda mais, as pessoas habituais do meu convívio forçado e quotidiano, assumem aspectos de símbolos, e, ou isolados ou ligando-se, formam uma escrita profética ou oculta, descritiva em sombras da minha vida. O escritório torna-se-me uma página com palavras de gente; a rua é um livro; as palavras trocadas com os usuais, os desabituais que encontro, são dizeres para que me falta o dicionário mas não de todo o entendimento. Falam, exprimem, porém não é de si que falam, nem a si que exprimem; são palavras, disse, e não mostram, deixam transparecer.
Mas, na minha visão crepuscular, só vagamente distingo o que essas vidraças súbitas, reveladas na superfície das coisas, admitem do interior que velam e revelam. Entendo sem conhecimento, como um cego a quem falem de cores.

Passando às vezes na rua, oiço trechos de conversas íntimas, e quase todas são da outra mulher, do outro homem, do rapaz da terceira ou da amante daquele, []

Levo comigo, só de ouvir estas sombras de discurso humano que é afinal o tudo em que se ocupam a maioria das vidas conscientes, um tédio de nojo, uma angústia de exílio entre aranhas e a consciência súbita de meu amarfanhamento entre gente real; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida
publicado por busybee às 19:46
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 11 de Abril de 2006

A POESIA OBJECTIVA (opinião de Pessoa, acerca do poeta Cesário Verde)



Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha.
Com excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos três a sorte normal dos mestres- a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência.
A celebridade raras vezes acolhe os génios em vida, salvo se a vida é longa, e lhes chega ao fim dela. Quase nunca acolhe aqueles génios especiais, em quem o dom da criação se junta ao da novidade: que não sintetizam, como Milton, a experiência poética anterior, mas estabelecem como Shakespeare, um novo aspecto de poesia. Assim, e nos exemplos comparativamente citados, ao passo que Milton, embora sem pequenez para ser aceite pelo vulgo, foi de seu tempo tido como grande grandeza que tinha, Shakespeare não foi apreciado pelos contemporâneos senão como cómico.
Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. Com Cesário Verde se fundou entre nós a poesia objectiva, igualmente ignorada entre nós. Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa. Qualquer dos três, porque qualquer é um homem de génio. é grande não só adentro de Portugal, mas em absoluto.
Os restantes poetas tiveram o seu tempo, e quem tem o seu tempo não pode ter os outros. O que os deuses dão, vendem-no., diziam os gregos. Junqueiro morreu logo que morreu, O mesmo Pascoais está moribundo. Não que destes poetas mais célebres que imortais não fique nada. Ficam poemas: a obra, porém, não fica.
Este fenómeno tem uma explicação, porque tudo tem uma explicação. A celebridade consiste numa adaptação ao meio; a imortalidade numa adaptação a todos os meios. Quando se diz que a posteridade começa na fronteira, assim, em certo modo se entende.
Cesário Verde foi um dos mais radicais revolucionários que há na literatura.
Não lhe chamo um grande revolucionário, porque o termo «grande» não se lhe pode aplicar de modo algum.
Quem ler a obra de Cesário / admira-se / da admiração que a muitos causa. É que lida desprendidamente , e com a expectativa de encontrar grandeza, a obra de Cesário Verde com o que revela de nula imaginação, de nula inteligência, de sentimento circunscrito e até de falta de sentimento estético, assombra pelo que não tem de grande. O segredo está em que essa obra, pobre como é quase tudo quanto constitui a grandeza poética, possui soberanamente a absorvente uma qualidade constitutiva da grandeza – a originalidade.
Para medir a grandeza de Cesário é preciso lê-lo depois de por ampla leitura se estar saturado e integrado no género poético no meio do qual a sua obra surge como um relâmpago. é depois de ler essas obras que se deve ler Cesário; e é reflectindo então em que foi no meio psíquico, onde aquelas eram representativas e/ usuais/, que irrompeu a obra de Cesário Verde.
Da violência enorme do contraste salta aos olhos, a par da extraordinária originalidade de Cesário, o conceito psicologicamente explicativo (...) a/ chave/ dessa individualidade sociologicamente considerada.
Quanto à novidade da obra o contraste é flagrante. Em vez da retórica oca e do concomitante sentimentalismo difuso, da carência completa de tudo quanto fosse a visão artística do mundo exterior, da longa estrofe retumbante– o verso sóbrio e severo, o sentimento reprimido, a visão nítida (...) das cousas, o epíteto revelador, o uso simples e (...) da quadra, ou da quintilha, quase sempre apenas do decassílabo e do alexandrino.
Isto é dito por alto; porque em toda a linha de comparação, em cada ponto da linha, o contraste é inteiro e completo.
Dizer que Cesário sofreu influências várias quer dizer simplesmente que foi vivo. Todos os autores sofrem influências; a diferença começa no uso que fazem delas. Quanto maior a capacidade de compreensão de um espírito, mais facilmente influenciado é; quanto maior a sua capacidade de criação mais facilmente converte essas muitas influências na substância da sua personalidade.
Uma individualidade pode ser intensa por ser estreita, ou por ser profunda. Um Victor Hugo é fortemente individual porque é fortemente estreito: a sua sensibilidade pobríssima, a sua compreensão confusa não lhe permitem alagar-se tanto dentro de si mesmo, mudar de personalidade externa; só a prodigiosa riqueza das sensações e o seu não menos prodigioso poder de exprimir essas sensações, dão à sua obra, inutilmente extensíssima, o vigor, a «tenue», e a completidão que permite que viva.
Um espírito superficial tomará como pormenor curioso da obra de Cesário o cantar ele a cidade e também o campo.
O mais curioso deste pormenor é que ele é falso. Cesário não canta nem as cidades nem os campos. Canta a vida humana, e canta nos campos e nas cidades, em relação à natureza livre dos campos e à/ natureza artificial/ das cidades. Poderá parecer que é um amante do minucioso da natureza. Mas uma comparação, ainda que ligeira, com o que amam e/ pintam/ minuciosamente a natureza, mostra, pela nenhuma parecença com Cesário, mesmo no modo de descrever, que Cesário não é como eles.
E finalmente, quanto a sentimento, um só geralmente pode ter o esteta: o amor à vida e, correspondentemente, o horror à morte.
Cesário Verde não é bem um temperamento de esteta. Tem sentimento puro demais, e/ sentimento da beleza/ a menos.
Cesário é psiquismo muito mais curioso do que Théophile Gautier. Gautier é simplesmente o esteta típico; Cesário é qualquer coisa de mais individual.
Não é bem um esteta português – isto é, o esteta que, por ser duma raça sentimental não pode nunca tipificar o esteta completamente. Essa apelação convém mais, por ex., a Eugénio de Castro. Cesário é outra cousa. É português, mas limitadamente esteta.
*O sentimento estético não é grande em Cesário.
O sentimento é forte e sincero, mas reprimido: e é nisto que Cesário é curioso. É português que reprime o sentimento. Tem-no, porque é um português, e um português sem sentimento é cousa que não se concebe.




Texto inédito suprimido do Jornal de Letras
publicado por busybee às 13:54
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 4 de Abril de 2006

(sem título) Álvaro de Campos

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro :
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...)

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Mão ser Juiz Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
No ser sedento da justiça ou capitão da cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte,o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte,
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona na sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovitam
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

publicado por busybee às 17:20
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds