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Terça-feira, 11 de Abril de 2006

A POESIA OBJECTIVA (opinião de Pessoa, acerca do poeta Cesário Verde)



Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha.
Com excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos três a sorte normal dos mestres- a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência.
A celebridade raras vezes acolhe os génios em vida, salvo se a vida é longa, e lhes chega ao fim dela. Quase nunca acolhe aqueles génios especiais, em quem o dom da criação se junta ao da novidade: que não sintetizam, como Milton, a experiência poética anterior, mas estabelecem como Shakespeare, um novo aspecto de poesia. Assim, e nos exemplos comparativamente citados, ao passo que Milton, embora sem pequenez para ser aceite pelo vulgo, foi de seu tempo tido como grande grandeza que tinha, Shakespeare não foi apreciado pelos contemporâneos senão como cómico.
Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. Com Cesário Verde se fundou entre nós a poesia objectiva, igualmente ignorada entre nós. Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa. Qualquer dos três, porque qualquer é um homem de génio. é grande não só adentro de Portugal, mas em absoluto.
Os restantes poetas tiveram o seu tempo, e quem tem o seu tempo não pode ter os outros. O que os deuses dão, vendem-no., diziam os gregos. Junqueiro morreu logo que morreu, O mesmo Pascoais está moribundo. Não que destes poetas mais célebres que imortais não fique nada. Ficam poemas: a obra, porém, não fica.
Este fenómeno tem uma explicação, porque tudo tem uma explicação. A celebridade consiste numa adaptação ao meio; a imortalidade numa adaptação a todos os meios. Quando se diz que a posteridade começa na fronteira, assim, em certo modo se entende.
Cesário Verde foi um dos mais radicais revolucionários que há na literatura.
Não lhe chamo um grande revolucionário, porque o termo «grande» não se lhe pode aplicar de modo algum.
Quem ler a obra de Cesário / admira-se / da admiração que a muitos causa. É que lida desprendidamente , e com a expectativa de encontrar grandeza, a obra de Cesário Verde com o que revela de nula imaginação, de nula inteligência, de sentimento circunscrito e até de falta de sentimento estético, assombra pelo que não tem de grande. O segredo está em que essa obra, pobre como é quase tudo quanto constitui a grandeza poética, possui soberanamente a absorvente uma qualidade constitutiva da grandeza – a originalidade.
Para medir a grandeza de Cesário é preciso lê-lo depois de por ampla leitura se estar saturado e integrado no género poético no meio do qual a sua obra surge como um relâmpago. é depois de ler essas obras que se deve ler Cesário; e é reflectindo então em que foi no meio psíquico, onde aquelas eram representativas e/ usuais/, que irrompeu a obra de Cesário Verde.
Da violência enorme do contraste salta aos olhos, a par da extraordinária originalidade de Cesário, o conceito psicologicamente explicativo (...) a/ chave/ dessa individualidade sociologicamente considerada.
Quanto à novidade da obra o contraste é flagrante. Em vez da retórica oca e do concomitante sentimentalismo difuso, da carência completa de tudo quanto fosse a visão artística do mundo exterior, da longa estrofe retumbante– o verso sóbrio e severo, o sentimento reprimido, a visão nítida (...) das cousas, o epíteto revelador, o uso simples e (...) da quadra, ou da quintilha, quase sempre apenas do decassílabo e do alexandrino.
Isto é dito por alto; porque em toda a linha de comparação, em cada ponto da linha, o contraste é inteiro e completo.
Dizer que Cesário sofreu influências várias quer dizer simplesmente que foi vivo. Todos os autores sofrem influências; a diferença começa no uso que fazem delas. Quanto maior a capacidade de compreensão de um espírito, mais facilmente influenciado é; quanto maior a sua capacidade de criação mais facilmente converte essas muitas influências na substância da sua personalidade.
Uma individualidade pode ser intensa por ser estreita, ou por ser profunda. Um Victor Hugo é fortemente individual porque é fortemente estreito: a sua sensibilidade pobríssima, a sua compreensão confusa não lhe permitem alagar-se tanto dentro de si mesmo, mudar de personalidade externa; só a prodigiosa riqueza das sensações e o seu não menos prodigioso poder de exprimir essas sensações, dão à sua obra, inutilmente extensíssima, o vigor, a «tenue», e a completidão que permite que viva.
Um espírito superficial tomará como pormenor curioso da obra de Cesário o cantar ele a cidade e também o campo.
O mais curioso deste pormenor é que ele é falso. Cesário não canta nem as cidades nem os campos. Canta a vida humana, e canta nos campos e nas cidades, em relação à natureza livre dos campos e à/ natureza artificial/ das cidades. Poderá parecer que é um amante do minucioso da natureza. Mas uma comparação, ainda que ligeira, com o que amam e/ pintam/ minuciosamente a natureza, mostra, pela nenhuma parecença com Cesário, mesmo no modo de descrever, que Cesário não é como eles.
E finalmente, quanto a sentimento, um só geralmente pode ter o esteta: o amor à vida e, correspondentemente, o horror à morte.
Cesário Verde não é bem um temperamento de esteta. Tem sentimento puro demais, e/ sentimento da beleza/ a menos.
Cesário é psiquismo muito mais curioso do que Théophile Gautier. Gautier é simplesmente o esteta típico; Cesário é qualquer coisa de mais individual.
Não é bem um esteta português – isto é, o esteta que, por ser duma raça sentimental não pode nunca tipificar o esteta completamente. Essa apelação convém mais, por ex., a Eugénio de Castro. Cesário é outra cousa. É português, mas limitadamente esteta.
*O sentimento estético não é grande em Cesário.
O sentimento é forte e sincero, mas reprimido: e é nisto que Cesário é curioso. É português que reprime o sentimento. Tem-no, porque é um português, e um português sem sentimento é cousa que não se concebe.




Texto inédito suprimido do Jornal de Letras
publicado por busybee às 13:54
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