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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papiplas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De os ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão contemporânio de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Vírgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez ciquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugiando, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao meos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-metodo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos.
Da faina transportadora - de-cargas dos navios.
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fébricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótomo das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés-oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaçeiras do progressivo!

Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas Às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade Internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos longchamps e nos Derbies e nos ascots,
E Piccadillies e Avenues de l´Opéra que entram
pela minh´alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que se passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristrocráticoos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes,
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais.
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes criems-
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Vients-de-paraître amarelos como uma tinta brance!
Como eu nos amo a todos, a todos, a todos.
Como eu vos ano de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto ( o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vôs!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase um ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da indústria,
Prolongamentos humanosdas fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!

Eh, cimento armado, betão de ciemento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporânias, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes-
Na minha mente turbulenta e encadescida
Possuo-vos como a uma mulher bela que não se ama.
Que se encontra casualemte e se acha interessante.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edificíos!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é vida
publicado por busybee às 18:59
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