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Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

trecho 6, Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte de sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o cenhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para~não ter que desbotoar o casaco. Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência...Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui eu, assim!...
publicado por busybee às 15:43
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