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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

biografia de Pessoa-idade Adulta

Um homem com um torrente inesgotável de ideias e o choque de muitas emoções contidas, aliadas a uma inteligência e lucidez extraordinárias não se enquadraria num padrão de vida «normal». Assim, Fernando Pessoa, separado da família mais próxima pelas razões que citei nas biografias anteriores, deambulou pela cidade de Lisboa, sendo a casa das tias e das primas pontos de visita assídua, respeitando os aniversários e datas especiais, mas não o lar de que precisava. E precisaria ele de um lar com o significado corrente que esta palavra encerra?
Continuou a manter a correspondência com Pretória, mas muito espaçada. Em cartas à mãe guardadas no seu espólio íntimo, essa demora em escrever é por ele tristemente lastimada. A verdade é que os planos que para ele tinham traçado, o Curso Superior de Letras, ou a profissão de tradutor de uma grande editora, não se tinham concretizado. É natural que o poeta se sentisse um pouco em falta por não ter correspondido às expectativas dos pais.
Em Lisboa, conviveu com vários intelectuais, cuja lista seria demasiado longa para apresentar aqui. Nos livros da sua biblioteca surgem dedicatórias de muitos escritores e poetas, muitas delas elogiando o seu talento, e que reproduzimos neste trabalho. Comprova-se, deste modo, que embora Pessoa buscasse o isolamento de que necessitava, como qualquer criador, estava rodeado por muitos espíritos cultos da sua época e não vivía tão isolado como muitos biógrafos apontam.
Fez várias tentativas, muitas delas sem sucesso, para publicar em jornais ingleses a poesia escrita neste idioma. Por outro lado, colaborou intensamente em revistas literárias portuguesas.
A sede de conhecimento avassalava o poeta, levando-o a procurar aprofundar os mistérios ocultos. Apesar de se sentir, ao ler a mensagem, a presença do poder divino, Pessoa percorreu todos os caminhos que tinha ao seu dispor: a Cabala, a Maçonaria, os Templários, a Alquimia, os Rosa-cruz e até mesmo experiências mediúnicas.
É sabido que estes caminhos podem perturbar as pessoas mais sensíveis e este facto muitas vezes o atormentou, por nunca ter esquecido a sua velha e demente avó paterna, Dionísia de Seabra Pessoa. Esses medos, que perseguem, às vezes, os predispostos a indagações espirituais, levaram-no a confessar que se sentia perto da loucura. O facto é que a sua saúde física revelava uma certa debilidade. Nas cartas que a namorada Ofélia lhe escreveu, são referidos pequenos males de que ele sofria e que a preocupavam.
Durante vários anos, comeu em restaurantes, dormia pouco e bebia demais.
Diga-se, no entanto, que nunca os familiares e amigos o viram perturbado com o álcool.
Isto não quer dizer que os bagaços, tomados a meio da manhã ou da tarde, não lhe fossem prejudiciais. Não sendo propriamente um boémio, na verdadeira ecepção da palavra, era-o como regra de vida. Tinha preocupações éticas, morais, mas não de comportamento regular no seu quotidiano. Esta sua maneira de viver seria outra das preocupações de Ofélia e da sua irmã Teca, que o tratava como se fosse ele o irmão mais novo e precisado de amparo. A Tia Anica, irmã de sua mãe e que de certa maneira, a substiuía em Lisboa, também lhe mostrava muitas vezes a sua preocupação. Com Mário Nogueira de Freitas, filho desta tia e, portanto, seu primo direito, partilhava muitas aspirações e alguns segredos.
No entanto Fernando Pessoa nunca teve dificuldade em arranjar emprego, um emprego a seu modo, evidentemente: com horário livre e chave da porta para entrar e sair quando quisesse. Os horários rígidos tinham ficado para trás. O curso de comércio tirado na África do Sul, o domínio do francês e inglês e a vocação para a escrita davam-lhe um perfil adequado para correspondente comercial. Os patrões admiravam-se por ele raramente fazer uma minuta, dactilografando directamente o texto pretendido.

A sua versatilidade era tal que também fez trabalhos de publicidade. Na firma do seu amigo Manuel martins da Hora, apresentou um texto divertidissímo para publicitar uma tinta para automóveis, do qual o amigo disse dele: « Era activo e prático em tudo quanto fazia. E descobria rapidamente o melhor sentido das coisas, improvisava sobre qualquer tema, quer se tratasse de automóveis, de frigoríficos, de artigos de moda, fosse o que fosse, da forma mais sugestiva e atraente».
O seu objectivo cingia-se a ganahr o suficiente para sobreviver, nunca tendo ligado muita importância ao dinheiro. O que ganhava dava apenas para concretizar a sua «OBRA».
Quando a avó Dionísia faleceu, deizou-lhe um pequeno pecúlio que ele aplicou comprando uma impressora em Portalegre e montando uma gráfica, a Ibís, que pouco tempo durou. Afinal, isto passou-se quando Fernando Pessoa tinha 21 anos e ainda pouca experiência. Fernando Pessoa tinha pouca sorte no negócio, sempre que o tentou fazer, tudo acabou sem sucesso. Nas cartas da mãe, está patente uma constante preocupação por ele não ter um trabalho ao seu nível e razoávelmente remunerado.
Como é evidente, depois de ter atingido a notariedade, muitas pessoas que com ele privaram, fora da família, deram entrevistas a seu respeito. A opinião geral é de que era muito bem-educado, extremamente delicado com as pessoas mais humildes e de convívio fácil. Sabe-se, porém, que lançou através da sua escrita mensagens e críticas ferozes a situações políticas e religiosas. O humor estava muitas vezes presente nos seus poemas, ensaios e críticas.
Frequentava os cafés daquela Lisboa conturbada por governos sucessivos: a Brasileira do Chiado, Os Irmãos Unidos, o Martinho da Arcada, a Cervejaria Jansen, o Café Montanha, etc., onde se encontrava com vários intelectuais da época: Alfredo Pedro Guisado, Mário de Sá Carneiro, Armando Cortes- Rodrigues, quando este chegava dos Açores, Augusto Ferreira Gomes, Francisco Camelo, António Ferro, Luís de Montalvor, Costa Brochado, Almada Negreiros, Bourbon e Meneses e muitos outros. Este convívio suscitava troca de ideias, projectos, leituras de textos, histórias de humor e desencanto. A amizade com os primos Andrade Neves, Costa Freitas e Freitas da Costa, Mário e Maria Nogueira de Freitas, Raul Soares da Costa, os Silvanos e Horta e Costa, etc, era uma constante na sua vida. Não os deixava de congratular pelos seus aniversários.

No escritório de Moitinho de Almeida, e a pedido deste, fez uma frase para publicitar a Coca-Cola que na altura deu que falar:« Primeiro estranha-se depois entranha-se». Talvez ao fabricante esta frase não agradasse em absoluto porque a palavra «entranhar» pode ter uma conotação pouco saudável. O resultado foi que a Coca-Cola não foi representada pela firma Moitinho de Almeida! Mas a razão pode ter sido outra. Consta que Salazar não queria uma bebida que lembrasse a «coca»!

Fernando Pessoa conheceu Ofélia Queiroz quando esta procurou ( e obteve) um emprego como secretária na firma Feliz, Valladas e Freitas. Esse Freitas era o seu primo Mário Nogueira Freitas, que o convidara para trabalhar na empresa. Existe um pequeno bilhete de visita onde Ofélia escreveu um verso e que tem a data de Novembro de 1919. Este assunto foi trato no Livro Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa .
O namoro começou em 1919/1920 e terminou no final deste mesmo ano, havendo depois uma segunda fase que se iniciou em 9 de Setembro de 1929, havendo cartas de Ofélia até Abril até Abril de 1931. Há ainda uma última carta desejando-lhe as Boas Festas em 1932. Ao ler esta correspondência mútua entende-se que o projecto de casamento não podia concretizar-se.
Quando Fernando Pessoa morreu, com apenas quarenta e sete anos de idade, Carlos Queiroz, sobrinho de Ofélia, publicou um pequeno livro intitulado Homenagem a Fernando Pessoa. A figura do poeta é enaltecida e especialmente compreendida por este homem de grande talento e discernimento que, como sobrinho de Ofélia Queiróz, privou com Fernado Pessoa.
Depois de seu padrasto morrer em Pretória, a família entulada regressou a Portugal, com Maria Madalena diminuída por ter tido um acidente vascular cerebral. Tinha havido uma greve nos Correios, em Lisboa, e a informação da data da chegada não chegou a tempo. Fernando Pessoa, que tinha alugado um andar na Rua Coelho da Rocha, em Lisboa, para aí viver com a família, não estava no cais à espera, como seria de esperar. A família via os passageiros saírem sem que Fernando aparecesse, ficando naturalemente alarmada. Finalmente, lá apareceu, acompanhado do primo Mário e com aspecto adoentado, pois estava com gripe. A casa não tinha os contadores a funcionar e a família foi acolhida na casa dos primos. António Silvano e a mulher, na Avenida Casal Ribeiro, nº37, que ainda existe e era uma moradia com jardim nas traseiras, onde brincaram e se divertiram, os jovens Teca, Luís e João. Mudaram-se em breve para a Rua Coelho da Rocha, nº16, onde está hoje a Casa Fernando Pessoa, que conserva pouco mais que a fachada primitiva.
Aí Fernando Pessoa retomou a vida de família, mas em condições tristes. Sua mãe era uma sombra do que fora nos tempos de Pretória. Em família, decidiram que, como muito sacrifício, o Luís e o João deveriam ir para Londres tirar cursos superiores, pois não dominavam suficientemente o português para se inscrever em Portugal. Partiram, assim, para um destino separado do resto da família.

A irmã Teca casou em Julho de 1923 e foi habitar com o marido para uma casa em Benfica, na Quinta dos Marechais, levando consigo a mãe, que precisava de cuidados constantes. O Fernando ficou novamente sozinho, embora com a irmã a residir na mesma cidade. Em 1924 nasceu a primeira filha do casal, Maria Leonor, que viria a morrer no verão do ano seguinte. No mesmo ano morreram também a mãe do poeta e o tio General Henrique Roza. A família, devido a tantos desgostos sofridos na casa de Benfica, mudou-se para a rua Coelho da Rocha, onde Fernando Morava.
Pessoa era uma companhia interessante. Contava o que acontecia nos meandros da vida intelectual e no fim da refeição, à hora do café, lia os poemas que na noite anterior, exaltado e fecril, escrevera. A Teca e o chunhado, Francisco, ouviam e, certamente um pouco atónitos, aplaudiam-no. A frase da irmã era quase sempre a mesma:«Oh Fernando! Tu tens de publicar».

Há sempre, no entanto, um vazio que se cava entre os que escrevem e os que privam da sua intimidade. Só o enaltecimento público dá o verdadeiro reconhecimento e esse estava ainda muito longe. Só os intelectuais da sua roda de amigos apreciavam a sua cultura e talento. Em cartas que escreveu a amigos, Fernando Pessoa lastimava não ser compreendido como desejava, como se achava merecedor. É sabido que todos os espíritos inovadores, salvo raras excepções, só são compreendidos fora da sua época.
Nesta casa da Rua Coelho da Rocha nasceu a segunda filha de Henriqueta Madalena, a Maria Manuela, uma criança que o tio Fernando acarinhava e a quem se dedicou. Depois de tantos desgostos passados, aquela criança impetuosa e saudável alegrava o ambiente e o lar. Chegara numa altura em que o sofrimento se tinha tornado insuportável. Havia um rasto de mortos no trágico ano de 1925, pois como já foi dito, morrera a mãe do poeta, a primeira sobrinha, o avô Veríssimo Dias, sogro da sua irmã e o tio Henrique.

No segundo período de cartas de Ofélia é vísivel a afeição do poeta pela Mimi ( a pequena Manuela, sobrinha de Fernando, autora do livro"Fernando Pessoa, imagens de uma vida", no qual é baseada esta biografia), Manuela deixa algumas recordações:
«Havia um sofá azul na comprida casa de jantar da Rua Coelho da Rocha, no centro uma mesa redonda em nogueira (...), um armário grande de alçado onde se punha a loiça(...) Recordo-me ainda de um sideboard e de tudo o que estava em cima e dentro dele, bem como das cadeiras, das pequenas mesas, do relógio de parede(...)A figura de Fernando andando initerruptamente no corredor em forma de L é uma das minhas memórias mais exactas e vivas. Vestia fato cinzento- escuro (apesar de viver como uma certa modéstia, comprava os fatos no Lourenço e Santos), sempre de camisa muito bem engomada e laço preto ou gravata preta. Passeava naquele corredor onde eu puxava os meus carrinhos de criança e, por quaquer razão ou mistério, eu sabia que não o podia perturbar em certas ocasiões. Quando ele, por fim, parava essa caminhada tão usual, vinha até onde eu estava e olhava-me. Às vezes perguntava-lhe: «O tio vai sair?» Se a resposta fosse negativa, pedia-lhe :« E se eu fosse fazer-lhe a barba?». Quando sorria e mostrava concordar a cena começava.
Ele sentava-se no sofá azul e deixava que eu lhe pusesse uma toalha ao pescoço. Ajoalhava-me a seu lado, com uma taça metálica com água e o pincel da barba previamente preparados, e começava a espalhar-lhe a espuma por toda a cara. Como já o tinha acompanhado várias vezes ao Sr. Manacés, o barbeiro da nossa rua, sabia perfeitamente o tipo de conversa que costumava haver na barbearia. Assim, nesta brincadeira muito séria de «faz de conta», o diálogo era pré-estabelecido e tudo levado a sério. Com uma faca de papel de galatite preta ( ainda não tínhamos chegado à era do plástico), eu escanhoava-lhe a cara dizendo sempre que estivesse quieto não leh fosse cortar as orelhas.
No final, aplicava uma loção cor-de-rosa e dando pancadinhas na cara dizia: «Sr. Pessoa, está pronto». O tio puxava o porta-moedas da algibeira e pagava o justo preço. Se o via disposto a aceitar um arranjo de unhas iniciava o segundo tratamento. A toalha passava para o colo e os apetrechos de toielete de minha mãe entravam em função.(...)Por este trabalho recebia outra moeda.
Eu deveria ter, talvez, uns cinco anos. Pedia que a empregada me acompanhasse e lá ia eu, sempre correndo à frente, até à leitaria do senhor Trindade comprer barrinhas de chocolate com as moedas ganhas. Quem sabe se isso não teria inspirado Fernando Pessoa quando escreveu o seu poema «Tabacaria» estes versos :«Come chocolates pequena;/ come chocolates!/Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.»? Tudo serve a um criador para se inspirar...como se sabe»
Aconteceu, que o cunhado de pessoa de Pessoa, e pai de Manuela mudou-se com a sua mulher e filha para Évora, por causa do seu emprego como militar , onde viveram durante 3 anos. Através das cartas do segundo período de namoro com Ofélia pode-se verificar que Pessoa ía muitas vezes a Évora. A namorada ía passar os aniversários ao Alentejo da irmã e da sobrinha, e a época de Natal. Nelas se referem alguns presentes que lhe levava, ele sempre gostou de dar presentes.
Quando regressaram à Rua Coelho da Rocha, tinha Manuela cinco, seis anos, a vida continuou normalmente. «Lembro-me perfeitamente dos pequenos presentes que o meu tio me trazia e escondia debaixo da dobra do meu guardanapo. O entusiasmo de ver que o guardanapo estava gordo, o desembrulhar e a cara dele de alegria ao ver-me correr para o abraçar!». Em 1930, nasceu o irmão de Manuela.
Entretanto, o cunhado de Pessoa decidiu comprar um terreno em S.João do estoril para construír uma casa, « Lembro-me de ver o meu tio no terreno onde as fundações começaram a abrir-se, a conversar com os meus pais enquanto eu corria acima e abaixo daquele terreno inclinado que não me parecia adequado para construir uma casa. Quando nos mudámos para a casa nova, havia um quarto destinado ao Fernando. A rua em frente dessa casa chama-se, actualmente, Rua Fernando Pessoa. Meu tio vinha passar o fim-de -semana e deambulava pelo jardim de mãos nas algibeiras. Lembro-me de ouvir a mãe contar que as suas conversas influênciaram a decoração da casa: o espírito «Cubista» e «Arte Nova» levaram à escolha dos móveis, dos cortinados e dos estofos. Era a moda» conta a sua sobrinha Manuela «Uma tarde, o tio Fernando saiu para dar uma volta. Escurecia, aproximava-se a hora do jantar e ele nem vinha nem dava notícias. Meu par atendendo à preocupação, talvez exagerada, de minha mãe, desceu a rua e foi até ao paredão que dá para a Praia de S.João, onde o encontrou, olhando o mar, num crepúsculo muito perto da noite. Quieto, perscrutando o oceano.»

Nestes apontamentos ligeiros, mas onde o espírito da verdade é o principal objectivo, o leitor encontrará talvez motivos para querer conhecer melhor a obra deste homem que preferiu deixar ao mundo os seus pensamentos, as suas dúvidas. Sabemos que o dogmatismo, o fanatismo e a violência eram os inimigos que nunca tolerou.
Não interessa querer enquadrá-lo numa religião, numa política, num padrão. Justamente diversificou-se porque não cabia dentro das fórmulas que sempre apequenam o ser humano. Talvez por isso a sua obra cresça incessantemente, e Fernando Pessoa se tornou um dos melhores poetas de sempre e da humanidade.








As informações deste texto, bem como muitas das frases foram retiradas do livro « Fernando Pessoa, imagens de uma vida» publicado pela sua sobrinha, Manuela Nogueira

publicado por busybee às 19:47
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005

poema, Fernando Pessoa

Subita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
trago no coração, como de um trono
desde e se afirma meu senhor e dono
sem, ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
presa por uma corda de incosciente
a qualquer mão nocturna que me guia

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
de um vulto que não vejo e que me assombra
E em nada existo como a treva fria.
publicado por busybee às 10:12
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

biografia de Pessoa-Adolescência

Depois de ter acabado o curso dos liceus e frequentado um curso nocturno de comércio em Durban, a mãe e o padrasto acharam que o jovem Fernando deveria regressar a Portugal e entrar na Faculdade de Letras. Sempre tirara as notas mais altas nas disciplinas relacionadas com HIstória, Literatura e Latim.

Pessoa partiu sozinho em Agosto de 1905 no Herzog rumo Lisboa. Viveu durante algum tempo na casa das tiasavós, Maria Xavier Pinheiro da Cunha e Rita Xavier Pinheiro. Conta-se que uma tia, uma velha solteirona, apesar de gostar muito do sobrinho e de lhe ter bastante carinho o maçava com muitas recomendações, e que Fernando lhe respondeu não ofensivamente o seguinte : «Olhe, tia, enterre-se num balde».
Depois mudou-se para a casa da irmã de sua mãe, Ana Nogueira de Freitas ( a tia Anica), onde ficou instalado até esta se ausentar para a Suíça com a família de sua filha Maria, pois o seu genro era engenheiro naval e fez um curso de engenharia electrotécnica com uma bolsa de estudo na Suíça. A figura de Álvaro de Campos foi, segundo sempre se pensou, uma pista literária consequente deste facto próximo e familiar. Seria?

Durante esse tempo Fernando Pessoa, ainda jovem, continou a escrever poemas em inglês. Matriculou-se no curso superior de Letras, que frequentou durante pouco tempo devido a vários factores. Um deles doi a greve académica que levou D.Carlos a dissolver as Cortes e que contribuiu para que houvesse um ambiente político caótico, e além disso Fernando Pessoa não encontrou motivos que o interessasem para tirar o curso. A cultura adquirida na África do Sul, onde teve um grande mestre, o Professor Nicholas, director da escola, levou-o a desiludir-se e a abandonar rapidamente a Faculdade de Letras de Lisboa, onde o ensino era bem diferente.
Em Outubro de 1906, a família voltou a Portugal e Fernando Pessoa mudou-se para a calçada da Estrela nº100, 1º andar, onde residiram durante cerca de um ano, no fim do qual morreria a irmã Maria Clara. A mortalidade infantil era bastante elevada na altura, mas a morte dos três irmãos teria-o afectado bastante. Os desgostos, as mudanças, as viagens, a adaptação aos estudos em Português e Inglês, foram factores que o estimularam para a sua precoce criatividade, e também tenham propiciado a tendência para a depressãp e a nostalogia.
A educação adquirida nas escolas inglesas era, na altura, de grande contenção emocional, não sendo considerado de bom tom mostrar as emoções publicamente, talvez essa contenção que o acompanhou sempre, assim como a outros membros da família, o estimulasse para a escrita, constituísse um veículo de escape.
A grande afeição da vida de Pessoa foi sempre a sua mãe e vê-la desgostosa em tantas ocasiões devia ser-lhe doloroso. Era uma afeição e admiração. Maria Madalena era bonita, culta, dominava o Inglês e o francês, tocava piano, escrevia versos e interessava-se por culinária. Os serões musicais nas casas de Durban e Pretória nunca foram esquecidos por Fernando Pessoa e seus irmãos. Ainda hoje, a família conserva alguns álbuns de música com partituras de piano e flauta, instrumento que o padrasto (a quem chamava pai) João Miguel tocava acompanhado pela mulher ao piano. Na correspondência, há notícia de garden-parties e são referidas as lições de canto, pintura e doçaria que a jovem Teca recebia. Mais tarde, utilizaria os seus dotes musicais em reuniões de família.

Fernando Pessoa dedicou vários poemas à mãe e à única irmã sobrevivente. Existe uma vaste correspondência entre os irmãos que testemunha a ternura e o bom relacionamento que os unia.
O irmão do padrasto, General Henrique dos Santos Roza, a quem teve se tratar vários assuntos burocráticos, tinha uma cultura fora do vulgar, e teve como amigos vários intelectuais da época deixou um espólio literário manuscrito, essencialmente poético, que ainda hoje existe. Muita dessa poesia foi publicada por Pessoa na revista Athena.
Na verdade, o General Henrique Roza, era um republicano convicto e influenciou por algum tempo o pensamento de Fernando Pessoa, dando aso aos momentos de anti-clericalismo expressos numa poesia irreverente datada de 25/10/1910.
A leitura da poesia de Henrique Roza, Teixeira de Pascoais, Camilo Pessanha e das obras de outros autores incluídas na biblioteca do General, anotadas e sublinhadas nas margens, influenciou os poemas que Pessoa escreveu nesta época, especialmente a sua poesia em inglês, publicada e inédita, que também prestava tributo à leitura dos clássicos ingleses.

Em 1908, com vinte anos, Pessoa escreveu um poema dedicadi a Antero de Quental em que mostra a sua decepção com a política que se fazia em Portugal. O amor à Pátria, que teria como expoente máximo a Mensagem ( a que pensou dar o título de Portugal) está patente desde o ínicio da sua escrita. Manifestou também um sentimento de sofrimento atroz em relação aos males da Pátria num escrito emocional datado de 5 de Setembro de 1908, em que diz : « Todos os dias os jornais me trazem notícias de factos que são humilhantes, [...] para nós, Portugueses. Ninguém pode imaginar como eu sofro com elas.»

Os anos da Grande Guerra iniciada em 1914 ocasionaram uma longa separação da família, que então habitava em Pretória. Foram anos de amargura, principalmente para a mãe. Infelizmente, as cartas que Pessoa escreveu aos seus familiares não foram conservadas como ela conservou todas que lhe enviaram. As mudanças de casa em África, fizeram com que a família deixa-se muita coisa pelo caminho, incluíndo móveis livros, etc. Subsistem, todavia, alguns testemunhos de amos e afecto, como postais, fotografias assinadas e as memórias dos que lhe sobreviveram, que servem de contraponto ao espólio epistolar que Fernando Pessoa religiosamente guardou.
Podemos corroborar, assim, muitas afirmações que encontramos, por exemplos, no livro Fernando Pessoa na Intimidade, de Isabel Murteira França, sobrinha-neta do poeta. Este livro baseia-se em entrevistas feitas à sua avó, Henriqueta Madalena, e apresenta excertos de um Diário de 1913, que esta última comentava deste modo: « Olha, o Fernando era assim, tinha sempre mil planos, mil ideias, esboços e, realmente muitos não chegava a concretizar. O seu espírito, tantas vezes quase febril, perdia-se na anarquia do deu desassossego interior.»
Entre 1913 e 1919, Pessoa viveu o entusiasmo próprio da sua juventude e, nas cartas ao amigo Armando Cortes Rodrigues manifestava já muitas das suas intenções, dando explicações sobre a heteronímia e fazendo planos para o futuro. Participava em vários grupos literários, desdobrava-se em iniciativas, rasgava protocolos assumidos em cátedras. Apesar de ser suave e cordato no trato familiar e social, irrompia em violências de conceito e estilo, criticava os políticos e a igreja. Fazia igualmente planos tendo em vista possíveis negócios, mas lastimava-se muitas vezes ( em alguns escritos) de sofrer de apatia na concretização de assuntos que passassem pela burocracia.

Em 1918, Santa Rita Pintor, que fazia parte do Portugal Futurista, morreu, vítima de uma gripe a que chamavam «a espanhola», deixando Fernando Pessoa mutio abalado pois, como ele, era um guerrilheiro para uma mudança. Amadeu de Souza-Cardoso também morreu no mesmo ano e Sidónio Pais foi vítima de um atentado. Estes acontecimentos foram profundamente chocantes para o poeta que, em Fevereiro de 1920, dedicou ao político assassinado um poema intitulado « À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais».
Recorde-se que em 1917 o heterónimo Bernardo Soares já «escrevia» excertos para o futuro Livro do Desassossego. É preciso não esquecer que, exceptuando as publicações em revistas e jornais, só os poemas ingleses e a Mensagem foram publicados em vida do poeta. Muito do que se tem vindo a publicar não estaria certamente na sua forma definitiva, o que em nada diminui a importância de dar a conhecer ao público essa obra oculta à data da sua morte.




As informações deste texto, bem como algumas frases foram retiradas do livro « Fernando Pessoa, imagens de uma vida» publicado pela sua sobrinha, Manuela Nogueira

publicado por busybee às 20:15
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