Alguma da obra poética dos seus heterónimos, especialmente o Livro do Desassossego de Bernardo Soares...

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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2006

Trecho 429, Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, de casa pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânia da média dos temperamentos alheios. Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por ser hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho e a falta de afeição merecida pelo instruso. Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca do meu próprio temperamento. Sou por ventura de uma frieza comunicativa, que involuntáriamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir. Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu. Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar. Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Órfão da Fortuna, tenho, como todos os orfãos, a necessidade de ser o objecto de afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer. Com isto ou sem isto a vida dói-me. Os outros têm quem sempre se lhes dedique. Eu nunca tive quem sequer pensasse em se me dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem. Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição. Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito começando quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras. Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferiria outra coisa. Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem. Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes. Talham melhor a sia vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar. Se um dia amasse, não seria amado. Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim.
publicado por busybee às 13:31
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006

Manuscritos de Pessoa acessíveis na Internet

A Biblioteca Nacional (BN) vai criar, no âmbito do seu portal na Internet, um espaço para consulta universal do espólio de Fernando Pessoa, iniciativa que será hoje apresentada na presença da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima.

"Poemas assinados e publicados por Pessoa como Caeiro" e, simultaneamente, "poemas atribuídos postumamente a este heterónimo pelos diferentes editores" ficarão, assim, reunidos num só lugar e com acesso facilitado para quantos desejem analisá-los, num passo que a BN espera venha abrir "um novo espaço e um novo ciclo" em matéria de "estudo dos manuscritos" do autor.

O núcleo mais forte da documentação que ficará, agora, acessível on line prende-se com os manuscritos d'O Guardador de Rebanhos - "todos os rascunhos escritos em folhas soltas e a última versão dos 49 poemas do ciclo, reunida num caderno de 40 folhas de papel almaço" -, seguindo-se dois outros núcleos, estes de menor dimensão, relativos a O Pastor Amoroso e a Poemas Inconjuntos.

Figurando entre os mais completos acervos literários à guarda da BN, o espólio de Fernando Pessoa foi também um dos primeiros a integrar o seu Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea (consultável em http/acpc.bn.pt), juntamente com os espólios de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Jaime Batalha Reis, Camilo Pessanha e António Pedro, na sua fase inicial.



Texto tirado, do DN
publicado por busybee às 21:24
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Sentimento apocalíptico

Pensando que cada passo da minha vida era um contacto com o horror do Novo, e que cada nova pessoa que eu conhecia era um novo fragmento vivo do desconhecido que eu punha em cima da mesa para quotidiana meditação apavorada- decidi abster-me de tudo, não avançar para nada, reduzir a acção ao mínimo, furtar-me o mais possível a que eu fosse encontrado quer pelos homens, quer pelos acontecimentos, requintar sobre a abstinências e pôr a abdicação a bizantino. Tanto o viver me apavora e me tortura.

Decidir-me, finalizar qualquer coisa, sair do duvidoso e do obscuro, são coisas [que] se me figuram catástofres, cataclismos universais.
Sinto a vida um apocalípse e cataclismo. Dia a dia em mim aumenta a incompetência para sequer esboçar gestos, para me conceber sequer em situações claras da realidade.

A presença dos outros - tão inesperada de alma a todo o momento - dia a dia é mais dolorosa e angustiante. Falar com os outros percorre-me de arrepios. Se mostram interesse por mim, fujo. Se me olham, estremeço. Se []

Estou numa defesa perpétua. Doo-me à vida e a outros. Não posso fitar a realidade frente a frente. O própriosol já me desanima e me desola. Só à noite, e à noite a sós comigo, alheio, esquecido, perdido - sem liga com a realidade nem parte com a utilidade - me encontro e me dou conforto.

Tenho frio da vida. Tudo é caves húmidas e catacumbas sem luz na minha existência.
Sou a derrota do último exército que sustinha o último império. Saibo-me a fim de uma civilização antiga e dominadora. Estou só e abandonado, eu que como que costumei mandar outros. Estou sem amigo, sem guia, eu a quem outros guiaram...

Qualquer coisa em mim pede eternamente compaixão - e chora sobre si como sobre um deus morto, sem altares no culto, quando a vinda branca dos bárbaros moceou nas fronteiras e a vida veio pedir contas ao império do que ele fizera da alegria.

Tenho sempre receio de que falem em mim. Falhei em tudo. Nada ousei sequer pensar em ser; pensar que o desejaria nem sequer o sonhei, porque no prórpio sonho me conheci incompetente para a vida, até no meu estado visionário de sonhador apenas.

Nem um sentimento levanta a minha cabeça do travesseiro onde a afundo por não poder com o corpo, nem com a ideia de que vivo, ou sequer com a ideia absoluta da vida.

Não falo a língua das realidades, e entre as coisas da vida cambaleio como um doente de longo leito que se ergue pela primeira vez. Só noleito me sinto na vida normal. Quando a febre chega agrada-me como coisa natural [] ao meu estado recumbente. Como uma chama ao vento tremo e estonteio-me. Só ao ar morto dos quartos fechados respiro a normalidade da minha vida.

Nem uma saudade já me resta das brisas à beira dos mares. Conformei-me com ter-me a minha alma por convento e eu não ser mais para mim do que outono sobre descampados secos, sem mais vida viva do que um reflexo como de uma luz que finda na escuridão endosselada dos tanques, sem mais esforço e cor do que o esplendor violeta-exílio do fim do poente sobre os montes.

No fundo nenhum outro prazer do que a análise da dor, nem outra volúpia que a do colear líquido e doente das sensações quando se esmiuçam e se decompõem - leves passos na sombra incerta, suaves ao ouvido, e nós nem nos voltamos para saber quem são, vagos contos longínquos, cujas palavras não buscamos colher, mas onde nos embala mais o indeciso do que dirão e a incerteza do lugar daonde vêm; ténues segredos de águas pálidas, enchendo de longes leves os espaços [] e nocturnos; guizos de carros longíquos, regressando donde? e que alegrias lá dentro, que não se ouvem aqui sonolentos no torpor morno na tarde onde o verão se esquece a outono...Morreram as flores do jardim, e, murchas, são outras flores - mais antigas, mais nobres, mais coevas a amarelo morto com o mistério e o silêncio e o abandono. As bolhas de água que afloram nos tanques têm a sua razão para os sonhos. Coaxar distante das rãs! Ó campo morto em mim! Ó sossego rústico passado em sonhos! Ó minha vida fútil como um maltês que não trabalha e dorme à beira dos caminhos como o aroma dos prados a entrar-lhe na alma como um novoeiro, num sono translúcido e fresco, fundo e cheio de eternidade como tudo que nada liga a nada, nocturno, ignorado, nómada e cansado sob a compaixão fria das estrelas.

Sigo o curso dos meus sonhos, fazendo das imagens degraus para outras imagens; desdobrando, como um leque, as metáforas casuais em grandes quadros de visão interna; desato de mim a vida, e ponho-a de banda como a um traje que aperta. Oculto-me entre as árvores longe das estradas. Perco-me. E logro, por momentos que correm levemente, esquecer o gosto à vida, deixar ir-se a ideia de luz e de bulício e acabar conscientemente, absurdamente pelas sensações fora, com um império de ruínas angustiadas, e uma entrada entre pendões e tambores de vitória numa grande final onde não choraria nada, nem desejaria nada e nem a mim próprio pediria o ser.

Doem-me as superfícies das águas dos tanques que criei em sonhos. É minha a palidez da lua que visiono sobre paisagens de florestas. É o meu cansaço o outono dos véus estagnados que recordo e não vi nunca. Pesa-me toda a minha vida morta, todos os meus sonhos faltos, tudo meu que não foi meu, no azul dos meus céus interiores, no tinir à vista à vista do correr dos meus rios da alma, no vasto e inquieto sossego dos trigos nas planícies que vejo e que não vejo.

Uma chávena, um tabaco que se fuma e cujo aroma nos atravessa, os olhos quase cerrados num quarto em penumbra... não quero mais da vida do que os meus sonhos e isto... Se é pouco? Não sei. Sei eu acaso o que é pouco ou muito?

Tarde de verão lá fora como eu gostaria de ser outro... Abro a janela. Tudo lá fora é suave, mas punge-me como uma dor incerta, como uma sensação vaga de descontentamento.
E uma última coisa punge-me, rasga-me, esfrangalha-me toda a alma. É que eu, a esta hora, a esta janela, pensando estas coisas tristes e suaves, devia ser uma figura estática, bela, como uma figura num quadro - e eu não o sou, nem isto sou...
A hora que passe e esqueça... A noite que venha, que cresça, que caia sobre tudo e nunca se erga. Que esta alma seja o meu túmulo para sempre, e que [] se absolute em treva e eu nunca mais possa viver sem sentir ou desejar.
publicado por busybee às 21:21
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2006

XLII-Alberto Caeiro

Passou a deligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias
publicado por busybee às 19:45
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2006

...

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"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
publicado por busybee às 15:18
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Há doenças piores que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mas reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa
publicado por busybee às 14:52
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trecho 22, Livro do Desassossego, Bernardo Soares

A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos. Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre à muito tempo. Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino. Deus é o existirmos e isto não ser tudo.
publicado por busybee às 14:34
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