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Quarta-feira, 28 de Junho de 2006

carta de amor

Bébezinho:

Tens mais que milhares - tens milhões- de razões para estares zangada, irritada, offendida comigo. Mas a culpa mal tem sido minha; tem sido d´aquelle Destino que me acaba de me condemnar o cerebro, não direi definitivamente , mas, pelo menos, a um estado que exige um tratamento cuidado, como não sei se poderei ter.

Tenciono (sem applicar agora o célebre decreto de 11 de Maio) ir para uma casa de saúde para o mez que vem, para ver se encontro alli um certo tratamento - isto é, não antevejo bem qual possa ser.

Nunca esperes por mim; se te apparecer será de manhã, quando vaes para o escriptorio, Poço Novo.

Não te preoccupes.

Afinal o que foi? Trocaram-me pelo Álvaro de Campos!

Sempre muito teu

Fernando

15/10/1920

publicado por busybee às 10:40
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2006

...

Todas as cousas que há neste mundo
Têm uma história,
Excepto estas rãs que coaxam no fundo
Da minha memória.

Qualquer lugar neste mundo tem
Um onde estar,
Salvo este charco de onde me vem
Esse coaxar.

Ergue-se em mim uma lua falsa
Sobre juncais,
E o charco emerge, que o luar realça
Menos e mais.

Onde, em que vida, de que maneira
Fui o que lembro
Por este coaxar das rãs na esteira
Do que deslembro?

Nada. Um silêncio entre juncos dorme.
Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.
publicado por busybee às 00:08
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outro poema inédito

Tenho esperança? Não tenho.
Tenho vontade de a ter?
Não sei. Ignoro a que venho,
Quero dormir e esquecer.

Se houvesse um bálsamo da alma,
QUe a fizesse sossegar,
Cair numa qualquer calma
Em que, sem sequer pensar,

Pudesse ser toda a vida,
Pensar todo o pensamento-
Então [...]
publicado por busybee às 00:05
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Sonhei, confuso, e o sono foi disperso (poema inédito)

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são.

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.
publicado por busybee às 00:00
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Terça-feira, 13 de Junho de 2006

118 anos do nascimento do poeta

 Hoje comemora-se 118 desde o nascimento do grande poeta. Publicarei dois poemas inéditos deste, e vou tentar publicar regularmente nas férias de verão.

Espero que mantenha sempre o mesmo lugar na pesquiza do sapo, e que cada vez mais as pessoas conheçam mais sobre o poeta.
publicado por busybee às 23:55
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Carta de amor

Meu querido Bébezinho :

Hoje não recebi carta tua, mas - é claro - não me admirei, porque já sabia que a tua carta de hontem, ( a que me deste no carro ) que não terias naturalmente tempo de me escrever.

Como esta carta te chega às mãos amanhã de manhã, quero mandar ao meu Bebé muitos e muitos parabéns, muitos beijinhos, e desejar que ella seja muito e muito feliz, muitas vezes o anniversario se repita com o Bebé sempre contente.

O engraçado era que no anno que vem eu já te pudesse dar estes parabéns de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha ?

Muitos beijos, muitissimos do teu, muito teu
Fernando


13/06/1920
publicado por busybee às 23:39
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Sábado, 10 de Junho de 2006

Trecho 230, Livro do Desassossego, Bernardo Soares

A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para espicial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o uqe eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.

Tudo quanto é abstracto é difícil de compreender, porque é difícil para ele a atenção de quem o leia. Darei, por isso, um exemplo simples, em que as abstracções que formei se concretizarão. Suponha-se que, por um motivo qualquer, que pode ser o cansaço de fazer contas ou o tédio de não ter que fazer, cai sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros. E, se não há comunicá-la a outros, é mais justo e mais fácil senti-la sem escrever.

Suponha-se, porém, que desejo comunicá-la a outros, isto é, fazer dela arte, pois a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles; sem o que nem há comunicação nem necessidade de o fazer. Procuro qual será a emoção humana vulgar que tenha o tom, o tipo, a forma desta emoção em que estou agora, pelas razões inumanas e particulares de ser um guarda-livros cansado ou um lisboeta aborrecido. E verifico uqe o tipo de emoção vulgar que produz, na alma vulgar, esta mesma emoção é a saudade da infância perdida.

Tenh a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa na província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir - e esta evocação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exactamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com a infância.

Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espôntanea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela.
A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e subtis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.

A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte - uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta.
A primeira é a poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, uqe mentem à inerência da fala; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.

Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou, ao menos, o comprarmo-la. Não fingimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.
publicado por busybee às 14:01
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